quinta-feira, 19 de março de 2015

Rascunho de ser humano



O corpo e a alma doem. A dor transborda. Mas, sei que não só em mim.

A sociedade está dolorosamente desassossegada, desejante mas ignorante nas suas possibilidades. Vivemos como se fôssemos desenhados, mas no processo anterior: no rascunho.

"O coração, se pudesse pensar, pararia" Já diria Fernando Pessoa, Desassossegadamente.

Quantas discussões a respeito da Psicanálise. Cada qual vende seu peixe. Porém, não é bem assim. 


Não colocaria toda uma história de estudo genuíno no mesmo patamar que tudo o que veio depois. Pois, o depois, é depois. E para ser o depois tem que ter havido o antes. Portanto, nada de generalizações e críticas baseadas em suas crenças individuais. Não se trata disso, e, com pesar, observo atitudes semelhantes nos estudos do curso que faço. Fico receosa, pois quem não costuma ler, buscar as necessárias informações e o conhecimento que o ajude a esclarecer suas angústias e dúvidas, ao escutar opiniões formadas, enclausuradas em uma redoma de crenças baseada em sua história pessoal, diz: 



- Ah tá.... Nem vou ler Freud, já que é assim.



Somos seres complicados, não é? Tenho sentido que as pessoas não estão preparadas para críticas. Há uma ilusão de que se sabe tudo porque o acesso às informações ilude ser simples. Pois eu diria: É, mas não simples, apenas simplório. 



Imagino o humano do ser hoje rascunhado em duas versões que ocorrem simultaneamente. Uma delas num rascunho com traçado frágil, doentio, repassado muitas vezes e fortificado por traços repetitivos no mesmo lugar. Algo patológico e alvo de patologias sociais. A outra versão utiliza um traçado forte em demasia, dividido em partes separadas mas 'juntadas' ou encostadas, algo compartimentado que não permite maiores teias relacionais de pensamento. 



Este ser rascunhado, dito humano me faz mal, sinto um desagrado maldito que me mantém em afastamento desses grupos narcísicos, em que pensam que estar certos de alguma coisa é alguma coisa. 



Não é. Estar certo é o primeiro erro. Se todos admitissem que estão errados, talvez algo melhor acontecesse.  Mente e o corpo não são apenas um agrupamento de órgãos, músculos e ossos, regidos por leis de uma ciência exata com conceitos fixos e estanques.  Mente e corpo são capazes, juntos, de absorver impressões físicas, cognitivas e psicológicas que interagem entre si. 

A mente agrupa as informações intelectuais e “mesmo em suas manifestações mais abstratas, não é separada do corpo, mas sim nascida dele e moldada por ele” (CAPRA, p. 79). 
Descartes já era desde que viu-se que o corpo sente as experiências físicas e emocionais vividas no estudo das etapas do Desenvolvimento Infantil, desde a gestação até a adolescência (VOLPI & VOLPI, 2002).


A crítica real neste mundo baseado numa cultura norte americana é da lógica versus o humano, o relativo.  É preciso "validar" a interpretação. Vejam que absurdo. Ao dizermos isso, estamos dizendo que é preciso "validar o ser humano". 



Pois, junto com o moço Rapaport, afirmo: A Psicanálise é uma ciência pois:

Objeto de estudo: conduta 
A Psique trata dos aspectos de conduta, portanto não são 'entidades'(!!!!)
Toda conduta é conduta da personalidade integral do ser humano (orgânico) interconectadas com os sistemas e instituições do sujeito.


Bem, podemos entrar em vários aspectos aqui, fenomenologia, patologias.... Porém, há de haver algo que reconcilie o sujeito a sí próprio. Ao distanciar-se em direção à logicidade de provar causas e efeitos, negamos o mais importante do ser humano, sua capacidade de refletir e transformar-se. De enxergar-se no Outro e de 'veramente' existir como ser pensante. 

 Assisto às aulas mas vivo em eterna tensão. Nada de ter razão, de estar certo, mas sim, falar bobagens e absurdos, por favor.... 


NÃO MAIS!

Inicio o ano no coro cantando um Requiem e, o sentido que dou a esse fato é que canto para tudo isso e todos esses que pensam que são a verdade única e determinante da vida.

A lógica me faz lembrar quando rascunhava a figura humana num papel em branco. Cada parte possui seu lugar. E sempre me perguntava: Como este 'boneco' pode ter vida?


Rascunho de ser humano. 

segunda-feira, 16 de março de 2015

Música e Palavra

"Você precisa se habituar às notas, e depois esquecê-las"  
(Professor Parker a David Helfgott, em "Shine")


Uma mente saturada, transbordante de memórias.

Não parece assim nosso pensamento hoje? Palavras que se acumulam entre as curvas das emoções e que, por serem tantas, muitas delas se perdem por aí. Ficamos poluídos de 'desnecessidades'. Como organizar isso? Como sugar ou desapegar-se do que não precisa para sermos o que realmente somos?

A música e as palavras tornam-se imprescindíveis em minha vida, hoje (na real sempre foram, eu que estava cega e surda) não evito comparar embora ambas tratem do ato de criação.


Em Clarice Lispector, o escrever vai além da linguagem apreendida pelas palavras, pois as palavras em si se desgastam. As palavras são atravessadas de silêncio. O silêncio fala.... elas calam.


Há algo na Música que nos dá uma sensação de alteridade. Como se nos observasse de longe. Vivemos entre a música e a palavra, já que a música expressa o intraduzível pela palavra.


A música como Psicanálise parecem transitar entre as "coisas como realmente elas existem" ou "fatos como eles realmente são".


Para Freud, é“algo que não podemos saber o que é, mas...acontece”


Um cantor, intérprete, porquanto passa o tempo, já não percebe-se o cantar bem, mas o jeito que 'pega' as palavras e as coloca sobre as notas da melodia do jeito só dele. (João Gilberto) Como numa sessão de análise. O paciente é cada vez mais ele.



Não consigo evitar de emaranhar a música e a psicanálise, elas estão em mim, no meu jeito de ser e de 'ver' o lado de fora. Elas ajudam-me a estar no Outro e sentir através do Outro o que talvez nem possa dizer. Nada de poder, onipotência ou o diabo.... que seja.






Na música há a profundidade das tensões, das pulsões, construção de imagens musicais que traduzem as palavras não ditas mas sentidas. Para que exista precisa ser ouvida. Para que seja compreendida é preciso que seja 'esquecida'. Mas.... ruminada e principalmente.... amada.






A Música(lidade) ocupa o vazio inerente a nós, mas não assim.... magicamente. Constrói-se com a escuta do Outro, da voz (como instrumento) promovendo o além do sintoma, essa é a possibilidade nova, advinda da criação da junção de uma escuta com o sentido de quem escuta.

Que silencia nesse momento? Sim.

O musico que interpreta e deixa livre o que toca para ser democraticamente liberto da partitura e dele próprio, talvez seja a pessoa fundamental em tudo isso. Pois ele é o libertador de algo que pode para sempre ficar preso e amarrado ao passado.






Somos "penetrados" por sons, objetos sofisticadamente articulados e relacionados. Em psicanálise, por palavras e sua "música" latente? Processo de conhecimento (Klein, 1946; Bion, 1962b)






E... O mais transbordante de tudo isso é que todos, compositor, intérprete e ouvinte, modificam todo e qualquer sujeito envolvido nesse ato.






Portanto, que se faça música, sempre!


Que conte a história antes de ser história.


Que ninguém impeça da música ser música.


Pois nem o tempo pode com ela.








sábado, 14 de março de 2015

Considerações amorosas.

Os gregos representaram em Eros, o amor. E por ser o amor como é, tratava-se de uma criança cega, surda, apenas com o desejo de ser cumprida a sua vontade.
Assim como amava rapidamente deixava de amar. Sua cegueira, claro, como quem está apaixonado, é resultado desse sentimento intenso que causa a sensação de desvario e loucura. Portanto, distante de qualquer cousa que possa aproximar-se de uma reflexão. Ao ser julgado por Hesíodo como o mais belo entre os deuses imortais porque deixa-se cair, já que seus membros amolecem e o peito submete-se ao coração. Suas flechas fulminam de forma instantânea como un relámpago, o que em Espanhol diríamos: "caer enamorado".

Uma 'doce' queda provocada por algo externo pode fazer estragos enormes em nosso Ego, todos os que já se apaixonaram sabem bem disso. Assim, para os gregos o amor-paixão é uma alteração irracional da alma.

Aristóteles já trazia uma certa ideia de que a paixao vinha de algo fora do homem e seria provocada por um deus.

Cá entre nós, bem que parece algo dos deuses....

Entao, seguindo essa ideia, um amor é capaz de naufragar gigantes, uma instância amorosa capaz de provocar a maiss terrível das tempestades e tormentas. Podendo chegar a uma patologia.

Bah! Paixão como doença acaba com minhas esperanças de que uma paixão pode.mudar, transformar um mundo, um sistema, um ser pessoa, da doença para a cura.
Só posso.concluir que um enamorado apaixonado nao é um ser livre nem responsável por suas ações.
Mas.... Como?
Quem se apaixona é uma.vítima de Eros. Bem.... Acontece.
Se somos incapazas de decidir por esse sentimento inicial, somos sim capazaes de escolher continuar nele.

Ahhh Paixão que acaba com qualquer coração mas que produz efeitos inigualáveis de prazer e transcendência. Momentos que se vão, mas que deveriam ser vividos sempre que possível. Que.beleza que.existe a poesia que perpetua o amor, mesmo que no papel. Mas que romântico escrever sobre amar num pedaço de papel.

O amor-paixão modifica o próprio ser humano. Esse grande.movimento de vida nunca devia ser julgado e desperdiçado por medos e temores da dor. Amar dói, de qualquer jeito. A dor é o arranque da aprendizagem. Não há como apenas passar por esta vida e não  viver. Há de se passar pela vida, mas há de se amar na vida. O sentido do viver.

A premissa de que o amor tenha sido inscrito sob as rédeas do irracional parece promover um distanciamento da ciência e da filosofia para.refletir sobre o fato de transbordar e exceder o fator individual. Afinal, vale a.pena amar?

Shakespeare descreve lindamente esta irracionalidade, ou.como queiram chamar, em "Sonhos de uma noite de verão".  Duendes que movem os fios do amor enquanto todos dormen, e ao acordarem estariam todos enamorados por seus, talvez,  impossiveis amores se não fossemum Sonho.

Lindo isso. Apaixonadamente.lindo e amorosamente humano, recheado de doçura e lindeza!
Os ocidentais ligaram o amor ao sentimento da dor. Ao ponto de que sofrer por amor vale a.pena. Isso culpa dos gregos que fizeram a paixão ser algo irracional (brincadeirinha séria rs)

Mas lindo mesmo e impossivel de ignorar é aquele amor da Idade Media, cortês, rebelde e profano. Ao som de canções  de exaltacao ao erotismo. O amor trovadoresco, ou deileixado, o amor proibido. Neste proibido talvez estejam as maiores e lindas historias de amor e paixão.
O romantismo eleva a paixao amorosa e sua consequência é a dor, a morte. Azar do destino.

Ema Bovary, ao ler suas  historias de amor, foi contemplada por inumeros contratempos sem os quais nunca seria um amor de verdade.

As mulheres que amaram de verdade e lutaram por seu amor era fortes e mudaram o mundo.
Zeus e seus raios criou o feminino e o masculino e até hoje eles se.procuram por esse mundo de naturezas e ciências, de emoçoes e razoes, de misterios e explicações.

Amar, apenas amar. Como.dizia o poeta. Tão  complicado para alguns e tão passivel de alegrias e prazer para outros.

Uma flechada dói. A questao está em como viver bem, amar sem sentir dor?

Alguns.amores são mortais e outros vão se fazendo  'a fuego lento', já dizia meu avô uruguaio, serenamente. É possivel aprender a amar diante das circunstâncias  da.vida. Hoje talvez tenhamos que reaprender a amar e resgatar em.nós a paixão escondida e abafada.por.um tempo passageiro. As marés que conduziam os navegadores.do amor parecem hoje procurar por eles. As águas vazias.invadiram as.possibilidades de amar devagar e sem repentes. Amar por amar. Amar, só amar.

Ahhh temos Platão com o conceito do desejo como ausência (Banquete)
Só desejamos aquilo.pelo qual somos carentes. Eis Sócrates.

Pensemos que o amor não se explica. Sendo assim, resta amar. Em suas diversas formas de amor a sociedade.poderá vir a transformar-se. O que sempre aconteceu e aconteceu porque é impossivel ao ser humano, por ser humano, não amar.

Para amar precisamos.do Outro. E Amar é o Outro. Um toca e o outro canta. O que nos falta está no Outro. Portanto amar, conversar, cuidar, olhar e sentir, abraçar, esperar..... Esperar sempre.... É entender o Outro como diferente de nós mas que sem ele nao seríamos nós.

Amar, para sempre amar!

sexta-feira, 13 de março de 2015


Volta silêncio

Noite na estrada. É a volta. Na volta sempre é noite. Tenho a impressão que alguma coisa em mim grita sozinha. Sinto sua vibração. Será a solidão de dias infindáveis pulsando no desejo que há muito tempo pede para ser nos 'aconteceres' de mim?
Se há um grito, há um silêncio tenebroso. Nas atormentadas palpitações de uma fome que não quero saciar, afasto-me. Fecho os olhos. Quando os abro depois de instantes, volto. 
Volto para as repetições de meus dias e minhas infinitas atividades.
O grito que se guarde em si. O silêncio que se estenda diante de meus pés para então acolher-me a ele com a calma de uma noite sem fim. 
O vão entre o que se vê e o que não é passa a ser gigante e nele afogo o grito do medo de chegar ao fim.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Mudança

Mude e dance conforme o rítmo das mu-danças.
Muda-se sempre, tudo, o tempo todo. Mas sinto às vezes como se estivéssemos num grande círculo em que tudo muda mas voltamos ao mesmo ponto que começamos. As 'roupas' mudam. O externo, o aparente, o que se vê ou o modo de se ver, sim.... muda ou passa por transformação. 
Logo, talvez o que deva ser pensado seja o nosso comportamento diante da realidade e do processo de modernização. As perguntas talvez devam ser diferentes provocando pensamentos que se voltem para a compreensão do que caminha junto com esse processo de modernização. Há o que é bom mas também o não é tão bom. A reflexão acerca dos fatores que reagem e interagem entre os períodos históricos e o processo de mudança é imprescindível. A escola deve sentir-se responsável, os indivíduos tornam-se responsáveis por si e pelos outros.
Já que o próprio indivíduo está nessa rede de 'emergências líquidas'.
Vejam bem, nossas emergências, necessidades mudaram (?), se liquefizeram (?).
Saibam que não aprecio nem um pouco essa coisa de liquidez. Não somos líquidos. Somos afeto, emocao, razao, historia, memória, poesia, contos, somos música, somos vida vicida e contada, somos amor.
Cansei dessa coisa toda desenfreada. Pô!
Líquido pra mim é vinho, cerveja e mate.
Só.
Vale?
Quem disse que devia usar a razão sofria do coração. 
Caiu no chão sem pensar que só com o coração é possível amar.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Do nada ninguém escapa

Há momentos em que o Nada nos suga, nos absorve, nos captura. Queria achar uma luz, uma saída, mas a única que consigo vislumbrar neste momento são as palavras. Elas transbordam e mais vazio fica o espaço que o nada ocupa.
Nada
Este nada me corroi, me consome de sentimentos dolorosos e satânicos.

Do nada viemos e para o nada vamos. Este é meu lema de hoje.
Assim me mostraram irmãos que dizem levar só virtudes em seus caminhos.

Devem viver na ilusão de serem alguma coisa.

Eu não.

Não eu.